Artesanato.... Vários trabalhos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Guerra Junqueiro

(Dedicatória de introdução a «A Musa em Férias»)




Recordam-se vocês do bom tempo d'outrora,

Dum tempo que passou e que não volta mais,

Quando íamos a rir pela existência fora

Alegres como em Junho os bandos dos pardais?

C'roava-nos a fronte um diadema d'aurora,

E o nosso coração vestido de esplendor

Era um divino Abril radiante, onde as abelhas

Vinham sugar o mel na balsâmina em flor.

Que doiradas canções nossas bocas vermelhas

Não lançaram então perdidas pelo ar!...

Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,

Canções feitas sem versos,

E que nós nunca mais havemos de cantar!

Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp'ranças

São áureos colibris das regiões da alvorada,

Que buscam para ninho os peitos das crianças.

E quando a neve cai já sobre a nossa estrada,

E quando o Inverno chega à nossa alma,então

Os pobres colibris, coitados, sentem frio,

E deixam-nos a nós o coração vazio,

Para fazer o ninho em outro coração.

Meus amigos, a vida é um Sol que chega ao cúmulo

Quando cantam em nós essas canções celestes;

A sua aurora é o berço, e o seu ocaso é o túmulo

Ergue-se entre os rosais e expira entre os ciprestes.

Por isso, quando o Sol da vida já declina,

Mostrando-nos ao longe as sombras do poente,

É-nos doce parar na encosta da colina

E volver para trás o nosso olhar plangente,

Para trás, para trás, para os tempos remotos

Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez,

Porque, ai! a juventude é como a flor do lótus,

Que em cem anos floresce apenas uma vez.



E como o noivo triste a quem morreu a amante,

E que ao sepulcro vai com suas mãos piedosas

Sobre um amor eterno — o amor dum só instante —

Deixar uma saudade e uma c'roa de rosas;

Assim, amigos meus, eu vou sobre um tesouro,

Sobre o estreito caixão, pequenino, infantil,

Da nossa mocidade, — a cotovia d'ouro

Que nasceu e morreu numa manhã d'Abril! —

Desprender, desfolhar estas canções sem nexo,

Estas pobres canções, tão simples, tão banais,

Mas onde existe ainda um pálido reflexo

Do tempo que passou, e que não volta mais.



Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

Ofereço com amizade para todas as amigas:
Com bjnhos:
Cecília Campos

Etiquetas:

1 Comentários:

Blogger Gertrudes disse...

Olá Cecília
Adorei os versos são lindíssimos.
Guerra Junqueiro era um ilustre poeta,você tem muito bom gosto, obrigada por compartilhar connosco
Beijinhos

23 de janeiro de 2012 às 14:33

 

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial